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Casal Feliz: Ilusão ou Possibilidade?

Assisti recentemente uma excelente palestra com uma psicanalista e terapeuta de família. Uma das declarações iniciais dela foi: “Toda relação é construída sobre uma ilusão.” O que isto significa? Quando você se casa, certamente tem em sua mente, consciente e inconsciente, uma imagem de como quer que seu cônjuge seja. Tem desejos de que ele/ela seja para você tudo aquilo que você acredita que possa lhe fazer feliz. Essa imagem e esse desejo revelam ilusões. Ilusão de que tudo será ótimo. Racionalmente sabemos que haverá problemas. Mas emocionalmente queremos nos iludir que eles não existirão “no meu casamento” ou se existirem serão facilmente resolvidos. E em geral o argumento que faz a pessoa crer nisto é “o grande amor que sinto”. Mas será amor ou paixão? Não sabemos, até que experimentamos que a paixão anterior não garante a felicidade posterior. Nesse sentido, paixão está muito ligada à ilusão porque tomada de paixão a pessoa não consegue ver que há também defeitos, limitações, conflitos mal resolvidos em si e no cônjuge. Ou vê, mas minimiza ou não pensa nisto ou em como isto poderia prejudicar a felicidade conjugal.

Não creio que casaremos preparados para o casamento. Casamos com o que conseguimos ser como pessoa naquele momento da vida. E o que conseguimos ser envolve coisas equilibradas e desequilibradas, arrumadas e desarrumadas, resolvidas e não resolvidas, em paz e em conflito, em harmonia e em desarmonia. É ao longo da vida de casados que podemos crescer como indivíduos e como casal. Eu disse: podemos. Ou seja, é possível, mas não é algo automático, não é algo que ocorre espontaneamente sem que seja preciso fazer algo. A felicidade individual e conjugal precisa ser construída com tarefas individuais e dos dois.

Um dia uma colega psicoterapeuta me respondeu à pergunta se ela atendia casais assim: “Não, não atendo porque já não é fácil ter que lidar com o inconsciente de uma só pessoa, imagine de duas!” Realmente. É difícil. O que ela quis dizer? Ela se referia ao fato de que numa psicoterapia (tratamento profissional psicológico baseado em conversas terapêuticas com um profissional treinado para isto, psicólogo ou psiquiatra) ficamos atentos o tempo todo para com o que a pessoa diz e especialmente para com o que ela não diz, assim como para com outros sinais que possam revelar o que vai no seu mundo emocional, como gestos, tom da voz, mímica facial, jeito de sentar, de cumprimentar, etc.

Muito de nosso comportamento é inconsciente, a maior parte é inconsciente. Agimos sem pensar, no automático. E isso numa relação conjugal é claro, à dois, ou seja, são dois inconscientes funcionando na vida consciente do dia-a-dia e – imagina o resultado! Se ambos não têm consciência de todas as motivações pessoais que fazem com que se comportem do jeito como se comportam no casamento, e geralmente não têm, como é que pode ficar esta relação ao longo dos anos?

Quando marido/mulher reclama de algo em casa ao seu cônjuge, exemplo: “O fogão está com defeito!”, nessa reclamação pode haver dois pedidos: um consciente e um inconsciente. O consciente é: “Você pode dar um jeito nesse fogão?” O inconsciente pode ser: “Se você der um jeito nesse fogão é porque se interessa por mim!” O que está no inconsciente, como o nome diz, está inconsciente! A pessoa não percebe. Mas isso está nela, é um desejo, uma necessidade que ela sente falta. Mas pode não falar sobre isto diretamente. Daí usa o problema do fogão para fazer uma mensagem dupla. Muitas vezes um cônjuge pede ao outro aquilo que ele/ela pode fazer sem nenhuma dificuldade. Por que pede, então? Porque o pedido mais importante é o inconsciente: pedido de atenção, de interesse, de participação, de afeto, de amor.

Então é preciso ser claro no que você quer e não quer. E evitar manter a possível ilusão com a qual você pode ter casado que pode ser: “Ele/ela será tudo para mim, tudo que eu preciso, tudo que desejo! E não preciso falar nada porque o amor sabe tudo!”
Nenhum ser humano pode ser tudo para outro ser humano. Isto é uma ilusão. E o contrário disso não é infelicidade. É realidade. Indica o limite de cada um. Pelo menos o limite naquele momento da vida pessoal. Podemos mudar para melhor. Mas não podemos ser perfeitos nessa vida e, portanto garantir ao outro a felicidade.

Casal feliz é o que está no processo (algo em andamento) de conhecimento individual e conjugal e que usa este conhecimento não para atacar um ao outro ou a si mesmo, pelo contrário, usa para desenvolver compaixão (não é pena!), respeito, compreensão e colaboração para com aquilo que se percebe como limitações pessoais e usa para aprofundar a intimidade afetiva entre ambos. Intimidade afetiva que é diferente de sexualidade. Sexo não garante intimidade afetiva. O “ficar” dos jovens é exatamente isto: sexo sem intimidade afetiva, sem compromisso. Isto num casamento, também, é querer ter prazer sexual só, que deixa um vazio e uma ausência de significado. Desenvolver genuína intimidade afetiva é o caminho do processo de ser feliz à dois. E é possível isto? É.

Dr. Cezar Vasconcellos de Souza – Psiquiatra do CAVS – Centro Adventista de Vida Saudável e do Hospital Adventista Silvestre.

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