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Comunicação Cerebrointestinal

Muitos pensam no intestino como um órgão que trabalha apenas para fazer a digestão e excretar do corpo, em forma de fezes, o que não for utilizado. Essa é apenas uma das funções do intestino. Existem muitas outras funções que serão explicadas a seguir. Aliás, de qual intestino estamos falando? 

Existem dois tipos de intestino com subdivisões em cada um deles. O intestino delgado, que se inicia logo após o estômago, é composto pelo duodeno, jejuno e íleo. O duodeno é o mais curto, com cerca de vinte e cinco centímetros. Nele é derramado todo o suco gástrico, o suco pancreático e a bile, adjuvantes principais no processo de digestão. É o principal local para absorção do ferro.

A seguir vem o jejuno, que tem cerca de dois metros e meio em um adulto. É o principal local para absorção de carboidratos, gorduras e proteínas já bem diminuídas pela digestão feita acima no estômago e duodeno. Os alimentos são mais digeridos nas porções altas do intestino e mais absorvidos nas porções baixas. 

Já o íleo, a última parte do intestino delgado, tem cerca de três metros e meio e é mais especializado em absorção de nutrientes, sais biliares, carboidratos e vitaminas, dentre elas a vitamina B12. 

Entre o íleo e o cólon, ou intestino grosso, existe uma válvula denominada ileocecal, que impede o refluxo de fezes do cólon para o íleo. O intestino grosso tem como funções absorção de água e eletrólitos para que as fezes saiam formadas, produção de determinadas vitaminas, como por exemplo a vitamina K e armazenamento e eliminação das fezes. 

Se fôssemos desenrolar e esticar os intestinos, o tamanho seria de cerca de 250 m2; uma quadra de tênis. Os intestinos possuem cerca de 500 milhões de neurônios, da mesma qualidade dos que estão no cérebro, que operam independentes, formando um sistema nervoso autônomo, denominado Sistema Nervoso Entérico, daí a capacidade de “pensar”, decidir e executar tarefas independentes do cérebro. Por isso os intestinos são chamados de o segundo cérebro. 

Esses neurônios produzem  90% de toda serotonina produzida pelo organismo humano, uma das mais fantásticas substâncias neuroativas, que nos leva a uma sensação real de bem-estar e felicidade. Existe um grande nervo, chamado vago, que faz a comunicação entre o cérebro e os mais de 30 neurotransmissores produzidos pelas células intestinais, levando e trazendo informações dos intestinos ao cérebro e de volta aos intestinos.

Acredita-se que importantes enfermidades, como por exemplo a doença de Crohn, doença diverticular dos cólon, diabetes, síndrome do cólon irritável, doença de Parkinson e retocolite ulcerativa, podem estar relacionadas a alterações neuroquímicas do Sistema Nervoso Entérico. Portanto, mais pesquisas precisam ser feitas para definir o exato papel do intestino na fisiopatogenia dessas doenças e como podemos evita-las.

Outra função importantíssima dos intestinos diz respeito ao sistema imunológico. Aproximadamente 80% das células produtoras de anticorpos estão associadas à mucosa do intestino delgado. O sistema imunológico do intestino é o mais importante no que se diz respeito a determinadas células, como por exemplo na quantidade de linfócitos, células responsáveis pela defesa contra invasores internos, como bactérias, vírus, helmintos, fungos ou parasitas.

Na Universidade de Michigan foi feito um experimento com um nematódeo (Caenorhabditis elegans) pela equile do Dr. Shawn Xu relacionando a longevidade ao intestino. Nessa interessante experiência, foi observado que o intestino e o cérebro trabalham juntos para regular o envelhecimento. Eles identificaram dois tipos de neurônios que detectam calor e frio e ambos agem na mesma proteína no intestino. Quando um tipo de neurônio detecta queda de temperatura, sinaliza para os neurônios do intestino, que liberam serotonina, que age em uma proteína denominada DAF-16, aumentando sua atividade e, com isso, aumenta também a longevidade do animal. Já o outro tipo de neurônio sensível ao calor, quando detecta aumento de temperatura, libera um hormônio semelhante à insulina, que bloqueia a proteína DAF-16, reduzindo assim o tempo de vida do nematódeo.

Dr. Xu conclui que com essas “descobertas, fica claro que o cérebro e o intestino podem trabalhar juntos para detectar informações relacionadas ao envelhecimento e depois divulgar essas informações para outras partes do corpo.” Ele crê que “esse tipo de eixo de sinalização possa coordenar o envelhecimento não apenas do C. elegans, mas também em muitos outros organismos.” Cell Reports, Volume 11, pp. 1414-1424, 9 de junho de 2015.

Outro trabalho excepcional feito por cientistas europeus, publicado na Revista Aging And Diseasevolume 9, número 2 de abril de 2018, estudou idosos centenários saudáveis, que foram comparados com jovens que haviam sofrido infarto do miocárdio. O assunto estudado foi a permeabilidade intestinal. A permeabilidade intestinal permite a passagem de substâncias, muitas vezes maléficas, do intestino para a corrente sanguínea. Quanto maior a permeabilidade, maior a chance de produtos que causam inflamação atingirem órgãos à distância, causando sérios danos à estrutura dos órgãos e, consequentemente uma série de doenças.

Os investigadores concluíram que os idosos saudáveis tinham permeabilidade intestinal bem menor que a dos jovens estudados. Isso foi feito medindo o nível de zonulina, uma proteína responsável por manter íntegra a barreira intestinal, e de endotoxinas, que são toxinas produzidas por bactérias e que podem causar inflamação crônica levando a doenças como diabetes, infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico. Essas doenças são as principais causas de mortes nos países desenvolvidos, inclusive no Brasil. Quanto mais altas as concentrações dessas substâncias no sangue, maior a permeabilidade vascular. Na comparação com os idosos, o nível de zonulina e endotoxina no sangue dos jovens era 1,9 e 3,7 vezes maior, respectivamente. 

Mas, como manter a barreira intestinal íntegra para que a permeabilidade intestinal seja baixa? Os principais fatores que destroem a barreira intestinal são o uso de bebidas alcoólicas, fumo, carboidratos refinados, desidratação, uso de antinflamatórios e pílulas anticoncepcionais, uso prolongado de antibióticos e corticóide e o estresse. 

Existe outra dimensão relacionada ao intestino que tem sido muito estudada, mas ainda é um assunto que vai render muitas descobertas: a microbiota, ou flora intestinal. Existem mais bactérias no intestino grosso do que células humanas no corpo. São cerca de dez vezes mais bactérias, chegando a um número de 100 trilhões, com mais de 300 espécies diferentes, o que corresponde a 2 ou 3 quilos do peso de um adulto. 

A partir do estudo das bactérias se inicia um novo entendimento sobre a comunicação entre o intestino e o cérebro. A boa microbiota ajuda na digestão de alimentos não digeridos, como as fibras, e, com isso, produz-se substâncias úteis ao funcionamento do intestino, como o ácido butírico, essencial na cicatrização da mucosa intestinal. Perceba a importância do consumo de vegetais, fonte das fibras.

Algumas dessas substâncias produzidas pelas bactérias do bem participam da comunicação entre o cérebro e o intestino através do nervo vago, das células de defesa ou pela corrente sanguínea, que levam essas substâncias até o cérebro, causando bem-estar e felicidade. Daí se diz que a microbiota intestinal é o terceiro cérebro. 

Quando as bactérias ruins, estão mais presentes no intestino, produzem substâncias que causam desinformação cerebral ao alcançarem o cérebro através das três vias citadas, provocando mau humor e depressão. Com o estímulo dessas moléculas nocivas, liberadas pelas bactérias ruins, o sistema imunológico também produz substâncias inflamatórias que atacam os intestinos e outras partes do organismo. Ao diminuir o número das bactérias do bem, pelo aumento das ruins, a produção de serotonina também é diminuída e a sensação de bem-estar e felicidade é perdida.

Mas como se adquire bactérias boas ou ruins? O segredo está na alimentação. Bactérias boas são adquiridas através do uso de probióticos ou prebióticos. Os probióticos são produtos alimentares que contêm micro-organismos vivos, benéficos à saúde. São encontrados nos leites fermentados, ou industrialmente produzidos. Os prebióticos são ingredientes nutricionais não digeríveis que ajudam no crescimento das bactérias benéficas do intestino grosso. Os prebióticos podem ser obtidos na forma natural , encontrados nas sementes e raízes de alguns vegetais como batata yacon, chicória, cebola, alho, alcachofra, alho poró, banana, cevada, aveia, maçã, linhaça, farelo de trigo, algas, aspargocevadacenteio, soja, grão-de-bico e tremoço.

Já as bactérias ruins são adquiridas pela ingestão de alimentos ricos em gorduras, como os alimentos de origem animal. Queijos, sorvetes, bolos recheados, doces e carnes vermelhas fazem parte dos alimentos ricos em gorduras saturadas que alimentam as bactérias ruins. Eles devem ser trocados por alimentos ricos em gorduras saudáveis, como o abacate, nozes e azeite de oliva. 

Além disso, as bactérias também sofrem desequilíbrio na sua quantidade quando submetidas a estresse. Um estudo feito na Universidade de Ohio nos Estados Unidos, mostrou que camundongos estressados sofreram baixas imediatas no nível das bactérias úteis e aumento das que contribuem para o aumento de peso. 

Quando se tem um desequilíbrio no intestino, com aumento das bactérias maléficas, há maior produção de gases e distensão abdominal, levando a desconforto, aumento de peso, diarreia ou prisão de ventre, queda da imunidade e aumento do colesterol. Esse desequilíbrio é deflagrado por estresse intenso, uso de antibióticos e alimentação desequilibrada. 

Relacionando depressão à microbiota intestinal, uma equipe de pesquisadores da Universidade College Cork, na Irlanda, fez uma experiência impressionante. Eles alimentaram camundongos com traços depressivos com probióticos por algumas semanas e outro grupo recebeu alimentos sem probióticos. Depois os camundongos foram colocados em uma bacia funda cheia de água, simulando uma possibilidade de afogamento. Em comparação com que não receberam probióticos, os animais alimentados com probióticos e que tinham o intestino equilibrado, lutavam mais tempo e com mais força para se salvar, não querendo desistir da vida. Ou seja, um intestino equilibrado é um excelente tratamento para depressão. 

Outro trabalho interessante, os cientistas colheram fezes de camundongos de temperamento energético e transferiram essas fezes para o intestino de animais mais apáticos, que passaram a reproduzir o temperamento dos primeiros. Faltam estudos em humanos, o que é um pouco complicado. Será que um paciente deprimido aceitaria receber um transplante de fezes para curar o seu mal? Isso ainda não é possível, mas pode-se adquirir bactérias benéficas de outras formas. 

Vimos aqui que essa relação entre o cérebro e os intestinos é intensa e pode trazer benefícios ou malefícios para nós, a depender de como nos portamos. Além da relação com a longevidade, que ainda precisa de mais estudos, essa comunicação cerebrointestinal nos ajuda no controle do peso, nível de colesterol, equilíbrio mental, melhora da imunidade, conforto abdominal, controle do estresse, e diminuição de inflamações. A lista é grande e pode aumentar conforme os estudos estão sendo realizados. 

Por outro lado os malefícios também são grandes com o desequilíbrio da microbiota intestinal. Portanto, para termos os benefícios maximizados é fundamental darmos atenção à alimentação correta, o consumo de água, a realização de exercícios físicos, o uso parcimonioso de medicamentos, o controle do nível de estresse, além de evitar o uso de bebidas alcoólicas e produtos do tabaco. 

Muitas doenças crônicas (como a doença cardíaca, derrame cerebral, câncer, diabetes tipo 2 e obesidade) podem ser prevenidas ou tratadas ao se seguir uma dieta vegetariana. Dietas vegetarianas bem planejadas têm se mostrado apropriadas para indivíduos durante todas as fases do ciclo de vida, incluindo gravidez, lactação, infância, e adolescência, bem como apoia o desempenho atlético superior.

Recomendações para uma dieta vegetariana saudável incluem os seguintes: 

  • • Coma pelo menos 9 porções por dia de uma variedade de frutas e legumes coloridos. Vegetais de cor amarela, laranja e vermelha, bem como folhosos verde-escuros devem ser enfatizados. Ameixas são ricas em potentes antioxidantes promotores de saúde. Embora os alimentos frescos sejam os melhores, frutas e verduras congeladas, secas ou enlatadas também são escolhas saudáveis. 
  • Grãos integrais são mais saborosos e mais saudáveis do que grãos e cereais refinados. Sempre que possível, os produtos de cereais não refinados e minimamente processados devem ser usados. 
  • Grãos integrais são mais saborosos e mais saudáveis do que grãos e cereais refinados. Sempre que possível, os produtos de cereais não refinados e minimamente processados devem ser usados. 
  • Um punhado de nozes deve ser ingerido em pelo menos 5 vezes por semana.
  • Se disponível, alimentos suplementados com vitamina D e vitamina B12 devem ser usados. Isso fornecerá nutrientes importantes e diminuirá o risco de deficiências. 
  • Deve ser feito um esforço especial para se obter uma boa fonte de ômega-3 todos os dias. As melhores fontes incluem sementes de linhaça, chia, nozes e soja, bem como seus óleos.
  • Para as pessoas que usam derivados lácteos, produtos com baixo teor de gordura devem ser usados. Isso reduzirá muito a ingestão indesejada de gorduras saturadas e colesterol.  
  • Produtos que substituem o leite e a carne devem ser adequadamente suplementados para serem considerados como alternativas nutricionais apropriadas.

Pense com seu cérebro, mas não se esqueça de que o seu intestino também “pensa”.

Ivan Stabnov – Médico Gastroenterologista,  Membro titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva – SOBED e da Federação Brasileira de Gastroenterologia – FBG – Amigo e colaborador do Cada Dia.

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