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A Contemporaneidade da Ética e da Política

A escolha do tema em apreço pode expressar vários tipos abordagens de tratamentos. Primeiramente, pode-se enfatizar o sentido cronológico, que poderia sugerir a atualidade do debate a respeito do inter-relacionamento entre a ética e a política, enquanto desafio e problema para quem se debruça hoje sobre essa temática a partir de uma reflexão filosófica. De outro lado, também poder-se-ia defender a tese de que a ética e a política estão de tal maneira imbricadas que esta não poderia ser pensada sem aquela. Tal assertiva encontra fundamentação no sentido etimológico de ambas. Basta lembrar a posição de Platão e, sobretudo, a de Aristóteles discorrendo sobre essa temática de maneira a que ambas estejam imbricadas, já que ethos, traduzido por costume, somente existe no viver-junto numa comunidade, isto é, na polis. Se formos consultar um bom dicionário grego, deparar-nos-emos com uma gama muito ampla de significações de polis, completamente distintas daquelas que os sociólogos atribuem à cidade enquanto espaço urbano em oposição ao campo enquanto extensão rural.

Por isso, não é sem razão que Aristóteles coloca o tratado da Política como que uma continuação ou um complemento das suas três éticas. Por fim, podemos interpretar A contemporaneidade da ética e da política” no sentido de que pensadores e seus escritos, embora se situem em épocas cronológica e geograficamente distantes, podem tornar-se nossos interlocutores, portanto nossos contemporâneos.

A esse respeito Ricoeur dá-nos uma lição permanentemente atual. Lendo seus escritos, verificamos que quase toda a história do pensamento filosófico ocidental é profundamente estudada e mobilizada com o objetivo de responder aos desafios e aos imperativos dos tempos atuais. Ele se apropria da obra dos filósofos mais antigos como possuidores de uma verdadeira reserva de sentido, tornando-os nossos contemporâneos. A seguinte afirmação o demonstra de maneira clara: A filosofia grega está conosco muna proximidade que não possuem a economia ou a política gregas, tornadas obsoletas” ( in DOSSE, 1997, p. 699).

Podemos encontrar na Bíblia, em particular nos breves escritos do profeta Amós, bem como no Código de Hamurabi ou na Tábua de Lei de Moisés certas ordenações e advertências com respeito ao comportamento dos governantes e dos súditos, de palpitante atualidade. À guisa de exemplificação, vale a pena refletir um pouco sobre alguns mandamentos da Tábua de Moisés a fim de constatar a atualidade ou contemporaneidade da relação entre a ética e a política ou da religião: com a política. Tendo descido do monte Sinai, Moisés apresenta ao povo uma série de preceitos religiosos e morais, reunidos sob a denominação de Decálogo. Vejamos algumas ordenações muito atuais no que concerne ao comportamento individual e social no campo político e religioso. Da primeira, “Não tomar o nome de Deus em vão, fomos testemunhas nas recentes eleições municipais Candidatos, cabos eleitorais e outros, apelando para Deus e para a Bíblia, com o objetivo de angariarem votos e chegarem ao poder. Exemplos mais dramáticos e mais desumanos estão sendo dados por Bush e Sharon ao invocarem, explícita ou implicitamente, o nome de Deus para justificar a guerra. God save América. O livro Em nome de Deus demonstra com vasta documentação o uso indevido do nome de Deus com o objetivo de justificar crimes os mais hediondos contra povos indefesos.

Lembremos ainda outros três mandamentos, muito atuais: Não matarás… Não roubarás… Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo… para constatar a atualidade dessas ordenações em nossa cidade, no Brasil e no mundo. Podemos ainda observar, de certa forma, como o Nome de Deus é tomado em vão pela presença do crucifixo nas paredes dos bancos e dos tribunais de justiça bem como pelo uso da expressão Deus seja louvado, gravada no dólar (uma afronta e um escárnio) e nas notas do real. Se lembrarmos que Jesus Cristo usou o chicote para expulsar os vendilhões do templo, penso que, se viesse ao mundo hoje, certamente teria idêntica atitude face aos lucros astronômicos do setor financeiro e em face de certas injustiças praticadas nos tribunais.

Alírio Lorezon – Professor universitário de Filosofia.

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